25/03 – Projeto Enraizar – Ericeira

“Fui e continuo sendo um intermediário.

Não tenho mérito por isso, apenas cumpro a minha missão.”

José Pacheco.

 

 

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Últimos momentos do Périplo! Mas primeiros momentos de futuras ações, planificações, transformação! Amigos, reencontros, despedidas de “Até breve” para disfarçar a emoção e saudade que já aponta!  Compromisso! Sim, compromisso com as expectativas criadas, com os projetos existentes e futuros.

Chegamos a noite em Ericeira na aconchegante casa de Paulo e sua esposa  que nos receberam com muito carinho.  Logo pela manhã fomos à escola onde acontece o Projeto Enraizar – Associação de Aprendizagem Comunitária,  que tem como objetivo desenvolver e apoiar práticas sustentáveis locais nas áreas da ecologia, educação, cultura, saúde, sociedade e tecnologia.

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Após,  conhecemos as instalações da escola e conversamos com as crianças. Também estavam esperando José Pacheco: a Tita, a Carla, e mais alguns amigos de périplo. Um menino sabendo que uma integrante do grupo que acompanha José Pacheco era do Brasil, logo a abordou perguntando:

-“Você é do Brasil? Tem papagaio na sua máquina? Eu adoro papagaios!”

E logo se dirigiu para o computador, acessou a internet e começou a pesquisar figuras de papagaio para nos mostrar. Mais crianças se aproximaram para conversar e ver as figuras.

A “roda de conversa” com a participação dos professores aconteceu à beira de um fogão à lenha que aquecia o ambiente.

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Diante das considerações de uma professora relatando que há crianças que moram nas proximidades porém não frequentam essa escola e, há crianças de outras localidades que ali estão José Pacheco responde:

José Pacheco: “ Devemos nos perguntar por que é que elas vêm? Por que é que elas vão?”

Professora: O que sentimos que as crianças vêm porque não tem escolas em suas comunidades que atendam as necessidades como por exemplo horários. A sociedade ainda não criou a rede familiar. É preciso estarmos em suporte às famílias.

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José Pacheco: Acabaste de definir – necessidade social. Aqui tem um projeto de mudança social e não de escola.

Paulo: O que é transformação social?

José Pacheco: Vou publicar um livro “Novo tempo e espaço, novas construções sociais”. Estamos prisioneiros à uma época em que a escola nem é pós moderna. Acredito mais em outros sistemas. A Finlândia fez mudanças, aboliu provas, aulas.

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Numa escola vi duas fileiras de grade. Na vizinhança, muros que separavam a escola da comunidade. Ao perguntar por que os muros, responderam:

– “Mesmo arquiteto que construiu o Carandiru construiu a escola”

– “Para nos defender do que está lá fora.”

Ao andarmos pelas ruas percebemos que havia muitas pessoas na comunidade.

Paulo: A questão das crianças estarem aqui além do espaço/tempo disponibilizado, quando há necessidade de ficarem além do horário cobra-se um adicional. Isso parece mais uma “multa”. Como resolver isso com os pais? Qual o caminho para experimentar as novas transformações?

Sabemos que as mudanças demoram tempo para adquirir confiança. Como equilibrarmos? Estamos em vias  de separar aquelas pessoas que acreditam mais, as que são mais rápidas e as que estão a contribuir não só com o trabalho mas também com energia.

Acredito que isso também passa pelos projetos pessoais. E são essas pessoas que estão a colaborar. Agora, qual o próximo passo e para que direção? O Objetivo é ampliar essa oportunidade à mais crianças!

José Pacheco: Há uns dias atrás estivemos em uma escola sob risco  de desaparecer, Professores foram demitidos. Esta escola por melhor que seja o projeto, não é autônoma. Estamos num sistema capitalista de mercado. A escola tem que se firmar pela sustentabilidade pedagógica, administrativa e financeira. E depois, as metas, expectativas dos pais em relação ao projeto. O mais difícil dos projetos são os primeiros 7 anos.

Há 4 anos aceitei o desafio de construir uma escola. Na escola o período  é integral. A Assistência Social patrocina algumas atividades no período do “contra turno” , mas o propósito seria nem turno nem contra turno. Então, fomos à comunidade e encontramos “educadores”!

Aí, como contratar professores se não temos  receita? Tivemos que pensar em opções para “enxugar” as despesas. O que fizemos? Tiramos cerca, câmeras, chaves, vigilância. Então não havia mais o que  era o “meu” mas sim o que era “nosso”!

Ao contrário de outras escolas não precisamos de uniforme, livros. Recebíamos doações, pois percebiam como era o nosso trabalho quando ele apontou resultados, como resolução do problema do lixo nas ruas, violência, saneamento básico.

Então, tivemos um estatuto de diferença.

Outras pessoas ao ouvirem falar do Projeto Âncora queriam conhecer . A vontade de conhecer  fez o que chamamos de turismo educativo.

Paulo: E o resultado enquanto transformação social, e as notas?

José Pacheco: Em 2013 aplicamos uma prova internamente, simulando a avaliação em larga escala. O resultado foi surpreendente. Além disso, o gasto professor/aluno foi de R$ 580,00/Ano.

No ano passado fizemos uma prova de aferição. O IDEB (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica) foi “10”, sendo a primeira escola brasileira a atingir esse resultado. À partir daí, nós vamos invadir as escolas públicas, ajudando crianças e professores de outras escolas.

Como conseguimos? Primeiro se percebe os efeitos sociais. Os pais confiaram. Os projetos são voltados ao que é necessário na comunidade. As crianças da favela trouxeram as necessidades e à partir daí tornaram-se empreendedores. Bem, vamos ver como vai ser aqui.

Paulo: O Enraizar foi para mostrar aos outros que é possível fazer diferente e que os resultados são bons. Quanto a Prova, um grupo especial fará posteriormente. Somente uma criança fará agora

José Pacheco: Entra-se numa guerra para ganhar! Nós temos que levar essa criança a obter o melhor resultado.

Paulo: A criança entrou aqui há pouco e ainda não sabia ler e a prova será em maio.

José Pacheco: Se essa criança não obtiver êxito comprometerá a proposta. Pensem nisso.

“Os resultados falam por si”.

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Se uma criança não obtiver bom resultado o projeto será questionado. O marketing  negativo é permanente.

Paulo: Como podemos ter ajuda à nível pedagógico? Queremos ir reclamar ao público, mas quando tivermos bons resultados para apresentar. Estamos com seis meses de existência e seremos avaliados em maio.

José Pacheco: É mudança na reconfiguração da escola. O fundamental é instalar metodologia com trabalho de projetos. Depois rever currículo, mas ter cuidado, pois tem que saber como mudar, há dois momentos.

Eu espero voltar, penso que é possível criar 5 protótipos. Não quero modelos nem doutrinas.  Estamos pensando em agrupá-los Quero preparar grupos para dar continuidade aos projetos. Idanha, Zumbra, Eres, Açores, o 5º. Pode ser aqui. Se eu vier em outubro quero trabalhar à partir do chão da escola. Até junho pensamos em fazer pequenas experiências.

Ainda José Pacheco:

Tarefa para casa: Enviar propostas de formação, planificar.

No centro de formação os participantes serão os que atuarão no processo. Quem tem que estar, participar em formação.

Em outubro iremos alterar a dimensão da prática:

1º. Princípio da alteridade – cuidar da pessoa;

2º. Formação – pois devemos ter consideração às crianças;

3º.  Reconfiguração da prática social, reconfiguração curricular.

Já participei de 2 ciclos e quero que o 3º. Ciclo aconteça.

As comunidade também terão que evoluir.

Quanto as tecnologias não podemos negá-las mas estabelecer conjuntamente as regras.

Temos que pensar em finalidades, criar comunidades de aprendizagem. As crianças podem aprender fora o que aprenderiam também na escola.

No Projeto Âncora, as crianças vão à escola quando necessitam de algo que não tem em outro espaço.

Temos o direito de fazer projetos sem os pais terem que pagar.

Nós vamos à guerra mas com bons trunfos. Basta de impunidade!

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Paulo: Mas como se faz isso?

José Pacheco: Tarefa; Paulo vai até a escola  mais próxima, vai à Direção do Agrupamento. Quando vou a uma escola, converso com o Diretor e faço o convencimento à adesão ao projeto. Se houver poucos que queiram fazer, deve-se respeitar a diversidade de opiniões.

Paulo: Já fui formador e encontro professores que acham gira, mas não encontro pessoas que queiram participar.

José Pacheco: Procurando bem há sempre alguém para caminhar junto. Sozinho não se faz nada.

“Eu sou do chão da escola, falo o que vivo”.

Cuidado em como fazer, pois há riscos.

Paulo: Difícil encontrar pessoas para aderir. Há pessoas um pouco distante que acreditaram, conheceram a Enraizar e queriam participar. Este projeto desperta curiosidade nas pessoas. Há elogios, mas ainda há rigidez.

José Pacheco: Deve-se demonstrar que essas crianças aprendem mais que as outras.

Professora: Temos diversas famílias que querem aprendizagem mais natural, outras querem as escolas escolas.

Paulo: Uma das formas de fazer a publicidade?

José Pacheco: perceber as famílias, vizinhos e buscar o porquê as crianças vão em outras escolas que não essa. Repare minha ideia é gerir bem o tempo.

Paulo: uma questão prática – e os tutores, 1 para 12?

José Pacheco: o grande problema do projeto é a permissividade do tutor. Tutor é o dinamizador do projeto.

Paulo: Como definir o tutor?

José Pacheco: No projeto Âncora o jardineiro é tutor, a cozinheira é tutora.

Paulo: O que é viável, encontrar pessoas que pensem dessa maneira?

José Pacheco: Quando iniciamos o Âncora outros da comunidade aprenderam com os professores o processo tutorial.

“Tutor é o adulto significativo para a criança, a afetividade não é neutra”A criança tem o direito em escolher o adulto que a representa, media na aprendizagem.”

A função do tutor é estabelecer relação intensa com a família. Tem que estar livre para isso, mas para assegurar isso existe a equipe que dá suporte.

O tutor capta a necessidade de seu tutorando e transforma-o em projeto.

“Sinto que eu fiz alguma coisa é quando eu estava com as crianças, eles estavam em mim e eu com eles – transcender. O principal é o que nós transferimos sem nos dar conta disso.”

Autoridade:

As crianças decidiram as regras.  E regras são feitas para serem cumpridas.

Paulo: Continuamos com a ideia de auto regulação até que os tutores consigam?

José Pacheco: Vínculo é isso, a criança quer que alguém se interesse por ela. Há crianças que são solitárias, são egocêntricas, veem os outros como paisagem.

Paulo: Em relação a tutoria, como distribuir os alunos? Qual critério?

José Pacheco: Na Escola da Ponte organizamos os alunos em três níveis, para constituir grupos com diferentes níveis.

PERÍODO DA TARDE

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Dando continuidade aos trabalhos, Paulo  faz a abertura da reunião apresentando o grupo de participantes. Diz que José Pacheco veio dar suporte ao Projeto que o Centro de Aprendizagem Enraizar está desenvolvendo

Paulo: Para que possamos atingir nossos objetivos, aqui hoje desenvolvimento comunitário.

José Pacheco: mesmo dentro dos meus grandes limites  estou aqui para ajudar e isso me faz bem.

Paulo: Consegues definir comunidade de aprendizagem?

José Pacheco: Escrevi  o livro “Aprender em Comunidade” além de 12 outros. Nenhum publicado aqui em Portugal, mas publicados no Brasil e traduzidos em outros idiomas.

Tenho a minha definição incompleta porque tenho medo de fazer doutrina;

“ São pessoas organizadas em redes de características circular que partilham  mesmo espaço físico, idênticos valores com igual visão de mundo e sociedade e ser humano, que partem de necessidades comuns, que partem de princípios e desenvolvimento de projetos para resolução das necessidades. Comunidade de Aprendizagem é um constructo que tem que estar em aberto”.

Ainda José Pacheco:

Uma escola  é um nodo de uma aprendizagem colaborativa que não é comunidade. A primeira comunidade de aprendizagem que se conhece é a da América do Sul (séc. XIV). Ela acontece muito antes das teses.

Hoje em Portugal há embriões, uma nova constituição social porque essa escola que está aí não consegue ensinar a todos.

Uma comunidade de aprendizagem é onde acontece simultaneamente desenvolvimento social e educacional/individual.

Paulo: A transformação pessoal é necessária para existir a transformação social global. Qual nosso papel nessa transformação social? Falo enquanto pessoa.

José Pacheco: Passo a dizer o que penso como pessoa e não como professor. Aquilo que se espera do educador é que refaça sua cultura professor e pessoa tomando consciência de que todos sejam felizes. Qualquer pessoa que passou pela escola tende a reproduzi-la. Quando a escola foi concebida tinha o professor como centro. Na teoria para situação subalterna.

É necessário reelaboração da cultura pessoal e profissional, reelaboração de valores, solidariedade.

Se a pessoa reelaborar sua cultura com os outros ela vai contagiar pois é com o outro  que percebo minha existência.”

Quando falo é a partir da escola. A escola tem que deixar de ser o que é a partir da reelaboração da cultura.

“Devemos ter respeito por quem não quer mudar, entendendo seu conhecimento.”

Quanto ao maior obstáculo à mudança – Perante evidências não há quem não ceder!

Representante  da Câmara: Como a autarquia pode apoiar? Nos ensina como podemos efetivamente contribuir?

José Pacheco: Conhecendo uma das escolas responderia sua pergunta.

A participação do poder público – articulação com acompanhamento das escolas ao longo de três anos. O projeto necessita ser avaliado para rever proposições. Não posso entrar em um projeto se este não tiver articulado junto ao poder público ou instituições. À partir daí o poder público definirá diretrizes educacionais. O trabalho que desenvolvo é gratuito. Se Portugal quiser acompanhar – Sejam bem vindos!

Câmara:  Qual é o nosso papel enquanto autarquia?

José Pacheco: No Brasil inicia com contrato de autonomia. A natureza jurídica no Brasil é o Ministério da Educação. Em Portugal – municipalização do 1º. Ciclo porque as Câmaras não conferem autonomia às comunidades que apresentam bons resultados?

Deve-se dar autonomia:

– Para os professores– dignidade social; fundamentação do trabalho na lei e na ciência;

– Administrativa: Valores e princípios atuais não coadunam com o que existe;

– Passar para gestão da comunidade. Rever projeto de gestão.

Quando as escolas tiverem autonomia à escola reduzirá custos. O aluno passa a custar 10 vezes menos.

“Tudo que estou a dizer estou a fazer.”

As escolas não desenvolvem seus PPPs.

Então me perguntam, qual o papel da autarquia? Não é necessário desenvolver atividades extracurriculares, mas conjuntamente. Podemos ajudar as escolas levando os professores a desenvolverem o Projeto.

Sempre faço duas perguntas aos diretores:

– Todos os alunos aprendem?

– Eles têm autonomia? Desenvolve-se a autonomia?

Em síntese, unir, juntar, ajudar aqueles que estão tristes na escola.

Pergunta: Como quantificar o desenvolvimento humano?

José Pacheco:  Na avaliação os resultados apontam índices de desempenho cognitivo porque não fazem o atitudinal, afetivo.

Como? Desenvolvendo princípios e valores coerentes com o projeto, analisando a partir da Escala de Likert. Os projetos devem estar voltados às necessidades da comunidade e não da escola somente. Também a questão atitudinal como exemplo exercer a solidariedade no cotidiano.

Nenhum professor pode se queixar de seus alunos, nenhum pai. Eles são reflexos de suas ações.

Sou muito vaidoso. Quando me perguntam da “Ponte” respondo que vão ver quem são os ex alunos. Vejam o impacto social Digo ao meu filho para ir para o Brasil e ele responde:

“Pai, enquanto este país estiver em crise eu não saio daqui.”

Paulo: Nova forma interna das instituições como isso funciona: Enraizar – Autarquias – Universidades.

José Pacheco: Funciona em dois planos: realizável e real. A escola pode – da heteronomia para a autonomia. Não é sinal  de cidadania quando se diz em uma maioria: Vamos lutar! Aí está a submissão da minoria diante da maioria.

Deve-se perceber diferenças entre aceitação e tolerância. Ninguém avança para uma decisão sem que os pais estejam em consenso. Quando a escola quer mudar, inicia-se a mudança em pequenos grupos.

Pergunta: Mas e quem não quer, permanece na escola?

José Pacheco: os concursos estão completamente errados. As pessoas concorrem com prédios e não em função de projetos.

Pergunta: Então a ideia é nós entrarmos na escola pública?

José Pacheco: Sim, Talvez. Trabalhamos com protótipos. A sugestão é manter este espaço para dar suporte às escolas. Precisa também ter viabilidade financeira.

Pergunta: Como consegue métodos para ajudar as crianças com valores  que se pretende? Como fazer diferente para trabalhar com crianças de diferentes comportamentos?

José Pacheco: Como transformar um jovem de uma favela em um ótimo sujeito. Mudanças atitudinais acontecem quando duas pessoas estabelecem um vínculo.

Pergunta: percebo que o que fazer é cuidar das crianças e adultos. Como fazer quando essa criança necessita de cuidados especiais e o professor não ficar com a sensação de não estar prejudicando os outros?

José Pacheco: Retirar a  criança do grupo não resolve. Devolve ao grupo. Deve-se incluir, agregar e não discriminar. Na Declaração de Salamanca está escrito que não há uma criança especial, todos são especiais.

Pergunta: usam compensações?

José Pacheco:  Compensar o que? O que se vai avaliar? De onde parte o mérito? O que a prova prova?

Pergunta: Como desenvolver com criança e tutor a autoridade?

José Pacheco: Sugiro a leitura de Bertolt “Margens dos rios”. A indisciplina é

“Você chama de violentas as águas de um rio que tudo arrastam; mas não chama de violentas as margens que o aprisionam.” Bertolt Brecht

Autoritarismo e permissividade – respeitar mas não misturar  os estatutos do professor e do aluno.

“Educação é uma ato político e ato de amor”!

“Um projeto humano é um projeto coletivo onde todos temos a aprender. Só tem sentido no quadro de um projeto local, consubstanciado numa lógica comunitária, e pressupõe profunda transformação cultural”.

 

Pergunta: Como administrar conflitos? Há grupos de responsabilidades? Comissão de ajuda?

José Pacheco: Construímos uma planilha: “Acho bom” e “Acho mau”. Também há monitoria das Comissões de Ajuda e Juri.

“Digo-vos para terem muita prudência e muita coragem para a mudança!”

No final da tarde ao concluirmos os trabalhos do último dia do périplo, mas o primeiro de futuras ações, nos despedimos dos professores do Enraizar.

Filipe se despede de José Pacheco com um “Até breve”. Ambos com emoção contida. Afinal foram 33 dias de convivência, de troca de ideias, planificações, projeções, realizações.

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“Nada acaba, quando se acaba um ano. Quando um ramo seca, novo ramo germina, quando uma certeza tomba na arca das inutilidades, novas doutrinas, tão perecíveis como as perecidas, se esboçam, no rendilhado tecer das efémeras ciências. É durável somente o que faz sentido que se renove ou transforme em cada um dos nossos transitórios dias.”- José Pacheco.

Fomos para o aeroporto de Lisboa rumar para a terra mátria de José Pacheco:

Bem Vindo ao Brasil José!

“Eu que  desaprender para aprender de novo. Raspar as tintas com que me pintaram. Desencaixotar emoções, recuperar sentidos.”  – Rubem Alves

Trajetória do Périplo

MAPA

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23/03 – Colégio Calvão

 

“Para uma nova sociedade, uma nova escola.

Para mim, escola é o lugar de acontecer.”

José Pacheco (2015)

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Encontro   Colégio  Nossa Senhora da Apresentação – Calvão

Numa manhã de muito frio e vento chegamos à Vagos

Fomos recebidos com um delicioso almoço no refeitório do Colégio e a boa companhia dos professores. Logo em seguida, fomos até o salão onde ficamos reunidos no período da tarde com todos os profissionais do Colégio para uma roda de conversa com José Pacheco.

Para dar início à conversa José Pacheco provoca o grupo fazendo a costumeira pergunta: “O que querem saber?”

Dado o silêncio por alguns segundos um integrante do grupo se manifesta perguntando:

– “O que acha que ficou como “Escola da Ponte” e lhe fez vir novamente partilhar vivências?”

José Pacheco: Primeiro digo-vos, foi porque saí de lá, porque foi uma história de sofrimento e exílio. A “Ponte” é produto de trabalho feito com professores como nós. Foi com muita humildade, respeito,  que que fomos alterando. E tudo iniciou com uma pergunta. Talvez o que eu lhes diga, vós não tenhas ouvido. A pergunta a mim mesmo era: Por que que eu dou aula tão bem dada e as crianças não aprendem?” Ao conversar com duas professoras, as mesmas também tinham o mesmo questionamento.

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Na “Ponte” trabalhavam-se 25 horas semanais e nas quartas-feiras havia 1 hora que era desenvolvida atividade diferente. Posteriormente, foi isso que percebemos que essa 1 hora dava mais resultados que o que era trabalhado nas demais 25 horas.

Na “Escola da Ponte” estavam os “alunos lixo”, aqueles que as outras escolas não quiseram. Após uma avaliação externa nossos alunos obtiveram o melhor desempenho. Mas, afinal, estávamos pobres. Quando a sociedade percebeu os resultados, trouxeram seus filhos (ricos) para a “Escola da Ponte”.

“Contra resultados não há argumentos!”

Quando as crianças vinham com gel ajudaram a acabar com o piolho.

Então tivemos ali uma escola de todos. Com o tempo ocorreram atritos com o Ministério.

Há algum tempo aqui estive para conhecer projetos, que infelizmente não existem mais. Disponibilizo à vocês meus livros por e-mail caso queiram.

Outra questão: É mesmo possível transformar a educação nessa época em que vivemos educação proveniente do século XIX?

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José Pacheco: “A Catalúnia (1905) é o berço da Escola Moderna. Portanto, um dos mais conservadores sistemas mudou.

“Para uma nova sociedade, uma nova escola.” José Pacheco (2015)

“Há duas instituições  que não acompanharam a evolução da sociedade – a igreja e escola.” José Pacheco (2015)

Tenho um filho que dá aula aqui em Portugal, porque não encontrou ninguém que junto busque  a diferença,  porque sozinho ninguém faz nada. O modelo cartesiano fez sucesso num determinado período. Os gestores estão condicionados a uma hierarquia, as Diretrizes ministeriais. A aula é um dispositivo recriado, proposta de Comenius.

Para mim, escola é o lugar de acontecer. Um professor não ensina aquilo que diz, ele transmite aquilo que é”. José Pacheco (2015)

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José Pacheco lança uma pergunta ao grupo: Por que férias? Que tempo de medida é esse? A criança aprende em todos os momentos!

José Pacheco: Aqui deixo meu convite: Que haja pelo menos e professores aqui que queiram a mudança e essa escola vai ver que há crianças que aprendem.

Pergunta:  Eu não estou convencida de que somente os três daqui conseguirão. Porque os pais estão determinando o que se deve fazer. Numa tentativa minha os pais vieram me perguntar por que não se trabalha determinadas coisas.

José Pacheco: O diálogo deve existir. Pois e lá fora? E os direitos que os pais se acham? Esse é o único trabalho que é questionado. Ninguém questiona o diagnóstico médico por exemplo. Quando houver um grupo, temos que criar um vínculo com a comunidade e com a família. Se o obstáculo  maior é aquilo que as famílias pensam o que é a escola, deve-se dizer a eles que a escola é um nodo pertencente a uma comunidade. Por exemplo, o Projeto Âncora está situado em uma comunidade que até então era considerada violenta. Na escola tinha diversidade de atividades para trabalhar com os alunos. Porém,  ao retornarem  no outro dia as fragilidades retornavam.

O Projeto Âncora iniciou com 235 crianças e 5 professores e pessoas da comunidade. Hoje há 80 pessoas participando. A Escola não tem controle de entrada, saída. Não tem muros. A todo o momento  a Escola está aberta para atender a comunidade. A escola auxilia a resolver os problemas da comunidade. Há uma ligação profunda entre comunidade e escola.

Família e escola fundem-se. Trata-se de criar comunidades de aprendizagem. Uma comunidade – pessoas que partilham valores. Uma escola deve ser a inspiração para a comunidade. Não se trata de “escolarizar” a comunidade. Devemos partir do solitário para o solidário, concebendo assim, autonomia enquanto  relacional, num processo de interdependência.

José Pacheco  exemplifica como estabeleceu a mediação cultural entre ele e um pai de aluno, o qual necessitava conversar:

José Pacheco: Consegui falar com o pai porque adentrei no seu contexto cultural, a partir do momento em que aceitei o que ele me oferecia.  Uma placa pendurada na parede tinha o seguinte dizer: “Quem não bebe não merece confiança!” Então, bebi o vinho que o pai do aluno me ofereceu e começamos a conversar. No outro dia lá estava ele na escola  acompanhado de outro pai.

Portanto, devemos nos comunicar com código descrito, no mesmo nível.

A família deve acompanhar seu filho. Cada um dos professores tinha alguns alunos (entre 7 e 8 alunos) para acompanhar.

“O ato de aprender é um ato de cumplicidade”.

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Pergunta: Tenho estado a ouvir: Se fosse professora aqui nesse momento, temos uma estrutura organizacional formatada. Então, como se poderia fazer isso em uma escola que tem essa estrutura?

José Pacheco: Virtualmente durante muito tempo, presencialmente duas a três vezes na semana. Precisamos fazer e rever o projeto educativo da escola. Lembram o que está escrito em seu Projeto educacional?

“Ou tiramos a palavra autonomia do PPP ou mudamos o PPP”.

Pergunta: Quais os obstáculos?

José Pacheco: São os professores, somos nós. Se o professor tem coragem de mudar sua cultura, tudo a sua volta muda. É necessária uma nova construção social. É preciso que as pessoas em dificuldade de ensinagem busquem alternativas.

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Após a reunião no Colégio Calvão, jantamos com um grupo de professores, onde José Pacheco continuou conversando com os mesmos. Foi mais uma noite agradável, em boa companhia.

23/03 – Maternura

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Com um misto de sentimentos entre satisfação diante dos projetos envolvidos e o comprometimento de todos empenhados em transformar a educação, já despontava no grupo uma “pontinha de saudade” uma vez que os últimos dias desse grandioso movimento pela educação  de Portugal tendo os queridos José Pacheco e Felipe Jeremias como mediadores nesse processo. Os protagonistas foram todos aqueles que se sentiram incomodados, que se desacomodaram, participaram, discutiram, sensibilizaram-se ante a necessidade de transformar a educação num processo de dinâmica “DESAPRENDIZAGEM”– Desaprender é preciso!

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Saímos de Idanha-a-Nova no meio da tarde, pois ainda teríamos que percorrer 233 km até ílhavo onde dormiríamos. O dia estava findando anunciando a chegada da noite quando chegamos à MATERNURA, onde fomos bem recebidos por Cláudia e seus familiares.  Os familiares de Cláudia e uma professora prepararam um delicioso jantar.

A MATERNURA é uma rede de suporte para infância e maternidade. Atende crianças da idade do maternal ao Pré-Escolar, em horários flexíveis, sensível a diversidade de cada um. Oferece serviços especializados para dar apoio às mulheres grávidas e mães e a seus filhos até os seis anos de idade. Como cada criança possui tempos e movimentos distintos, o atendimento responde a tais especificidades.

Já no início da manhã do dia 23/05, José Pacheco, Filipe, professores e uma representante da Câmara reuniram-se para conversar acerca da possibilidade de ampliar o projeto que ali é desenvolvido.

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Após assistirmos a um vídeo apresentando o objetivo do projeto Cláudia faz algumas perguntas a José Pacheco:

Cláudia: Queremos ouvir histórias que nos inspirassem. Queremos tornar o projeto autossuficiente e sustentável.

José Pacheco: Conheço muito projetos e muitos são diferentes. Penso que devem pensar o potencial, unir projetos comuns. Junto ao projeto deve-se buscar suporte do poder público/Câmara e da universidade. Essa instituição tem características próprias distintas dos jardins de infância. Cabe à Câmara fazer mapeamento das instituições com potencial educativo. Se isso for feito poder-se-á ampliar a proposta, pensando em atender a comunidade.

Quando começou o Projeto Âncora, tínhamos demanda de 150 crianças, cinco professores e nenhum centavo. Buscamos junto à comunidade quem poderia colaborar.  As crianças possuem atendimento integral multiprofissional.

O problema que se deve pensar é como administrar e enxugar despesas. Criamos a autonomia da escola, sendo esta da comunidade.

Cláudia – como trabalhamos com crianças menores vejo mais difícil, pois nunca é sustentável. Teremos que pensar qualquer atividade em anexo como auxiliar.

José Pacheco: Não como anexo, mas como extensão, continuidade.  Tem que se respeitar as escolas que aí estão.  Ao invés de tirar as crianças de onde estão, leva-as para lá.

Cláudia –  De que modo a Câmara poderia utilizar o que estamos fazendo aqui?

Representante da Câmara – De que forma, a Câmara, que não é autônoma, poderia ajudar? Pois recursos financeiros são reduzidos. Por exemplo, fui a algumas instituições, que já trabalhavam esse método, havia pais que aderiam a proposta e outros que resistiam. A questão é que seu trabalho está isolado; isolado pelo amor.

Cláudia – Nós família, adaptamos nossa casa para possibilitar o atendimento sem muito custo. Pensamos em conseguir outro espaço.

José Pacheco – muita gente discorda com as escolas. Temos que pensar – O que eu quero para meu filho? O que digo às vezes pode ser violento, mas é real – se temos nas escolas um projeto educativo escrito, que me diz que meu filho vai ser autônomo, responsável…

Representante da Câmara – Escola da Ponte não é um modelo para Portugal, porque as pessoas deveriam morrer e nascer outra vez para entender isso. Também temos uma proposta de educação para toda a vida, mas já fomos mais felizes. Há coisas que não sei de deveria falar. Nunca houve tanto papel – Sempre há de construir justificativas tanto para os bons resultados quanto para fragilidades.  Há pessoas boas, que estão saindo da escola, há restrições quanto contratação, questões burocráticas que inviabilizam o processo, fazendo com que as pessoas desistam e se afastem. Se uma escola apresenta fragilidades, lhe é solicitado justificar o porquê disso. Também se a escola logra êxito, necessário se faz justificar. Algumas coisas que acontecem são incompreensíveis.

José Pacheco – Também teve passagens de censura ao seu modo de pensar/escrever, expondo seu ponto de vista.

Cláudia: No Projeto Âncora teve uma formação com os professores? Como se deu isso?

José Pacheco: A formação é concretizada na práxis. Solicitei aos educadores que escrevessem num papel os dez valores que orientam suas vidas. Percebendo que havia interesses, valores comuns, estavam reunidas as condições iniciais do projeto. Deve-se entender que, num primeiro momento, contaremos com professores com resistência à proposta. Porém, ao vivenciar, experienciar se convencem da melhor alternativa. Deve-se estar no chão da escola para compreender o processo e compreender, porque  é viável.

Representante da Câmara – Eu fui professora e gostava muito de ser professora. Hoje há outros na área porque não tem outras alternativas. Ser professor era um escape. Todos poderiam ser professores.

José Pacheco deixou como tarefa à esse grupo buscar outras escolas para estabelecer diálogos, apresentar o projeto. As professoras disseram que aconteceria um encontro onde estariam explorando o vídeo que organizaram para fazer a apresentação.  A representante da Câmara se mostrou receptiva, porém disse que ela não poderia tomar decisões sozinha. Iria fazer o relato da reunião ao vereador e membros da Câmara para pensarem em possibilidades.

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19/03 – Visita ao Conservatório de Música da Covilhã

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19/03/2015

Após uma longa viagem seguida de almoço com novos amigos de Covilhã, iniciamos a visita ao Conservatório em uma sala de pré-escolar com crianças de 3 a 5 anos.

Pacheco chegou dizendo que era o “Pai Natal” e as crianças fizeram uma festa! Pediram presentes, perguntaram sobre a idade dele, se tinha filhos e mil outras coisas. Depois elas cantaram pra ele (e ele para elas), super afinadas!

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